quarta-feira, 14 de março de 2012

Histórias do Disque-Denúncia

Os Três Sequestros - 1995
Ainda não eram sete horas da manhã quando Marcos Fernando Chiesa chegou ao Colégio São Sebastião, na Estrada do Galeão, 998, Ilha do Governador. Aluno da segunda série do segundo grau, 16 anos, Marcos estava num Fiorino dirigido pelo motorista da família. Era uma quarta-feira, 25 de outubro de 1995. O que se seguiu estaria nas manchetes do dia seguinte. Diante da escola cheia de alunos, o carro foi fechado por um Passat e um Monza, de onde saltaram homens armados de revólveres e pistolas. Aos berros, o grupo rendeu o motorista e voltou-se para o interior do carro. Filho do comerciante José Chiesa, dono de uma próspera rede de churrascarias, Marcos era o verdadeiro alvo da ação. Foi arrancado do Fiorino e obrigado a entrar num dos carros, que disparou em alta velocidade. Desapareceu sem deixar vestígios.

Menos de duas horas depois, do outro lado da cidade, o jovem Eduardo Eugênio Gouvêa Vieira Filho seguia para o trabalho. Naquele horário, como de costume, o trânsito arrastava-se lentamente pelas ruas de Botafogo. Diante do shopping Rio Off Price (atual Plaza Shopping), na Rua General Severiano, Eduardo, 21 anos, foi surpreendido por oito homens armados de escopetas e metralhadoras. Vestindo coletes da polícia civil, frios e organizados, eles prontamente cercaram sua pick up Mitsubishi. “Perdeu, perdeu”, gritava um dos integrantes do bando. Sem que pudesse reagir, Duda foi levado pelos bandidos. Cinco dias antes, seu pai, o empresário Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira, diretor do grupo Ipiranga, havia assumido a presidência da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro.

Os dois episódios caíram como bombas na cúpula da Segurança Pública, que, na véspera, anunciara com entusiasmo a redução nos índices de seqüestro. Mas um terceiro petardo ainda estava para ser lançado. No fim da tarde, a estudante Carolina Dias Leite treinava equitação na Sociedade Hípica Brasileira, na Lagoa. Antes das 18h, ensaiava sua ida para casa, quando foi rendida na porta do clube. Como as vítimas anteriores, Carolina não foi pega ao acaso. Quatro bandidos esperavam pela moça de 18 anos, corpo mignon, filha de Antônio Dias Leite Neto, empresário do ramo de TV a cabo, neta de Antônio Dias Leite Filho, ministro do governo Costa e Silva. “Foi um soco no estômago”, desabafou o então governador Marcello Alencar. Naquela noite, uma névoa de impotência e desânimo cobriu o Rio de Janeiro. Oficialmente, dez pessoas permaneciam em cativeiro. Dos pontos de ônibus às mesas dos restaurantes, o assunto era um só: o Rio parecia refém do crime organizado.

Passadas menos de 24 horas, uma ligação anônima para o Disque-Denúncia mudaria os rumos dessa história. No telefonema – um dos vinte sobre o caso – uma voz dizia que Carolina estava numa casa do conjunto habitacional Santa Maria, em Campo Grande. Por causa da localização, a informação foi transmitida via fax para o Regimento de Polícia Montada Enyr Cony, da Polícia Militar, que fica em Campo Grande. “Disque-Denúncia? Como é isso?”, estranhou o capitão Weber Guttemberg Collyer, hoje tenente-coronel. “A gente nem sabia direito o que era o serviço”. Apesar da desconfiança, o então capitão achou melhor checar a história e seguiu com um pelotão até o conjunto habitacional. “A denúncia era cheia de detalhes, estava tudo lá. Avistamos a casa, cercamos e arrombamos a porta. A menina estava sentada, vendo televisão, tranqüila. Não estava acorrentada nem amordaçada. Perto dela havia um homem cozinhando”, lembra o tenente-coronel. O bandido tinha um revólver 38 apoiado sobre a geladeira, mas não arriscou empunhar a arma. Aliviada, a moça foi conduzida até o regimento, onde pouco depois pousaria um helicóptero providenciado pela família para levá-la até a Divisão Anti-Seqüestro, no Leblon. “Agora está 2 a 1 para eles”, bradou o então chefe da Polícia Civil, Helio Luz. No dia seguinte, Carolina divulgou um bilhete falando sobre o seqüestro. Encerrava o texto comemorando a libertação e dizendo: “Eu gostaria de agradecer a todo mundo envolvido nesse evento todo, especialmente à pessoa desconhecida que entrou em contato com o Disque-Denúncia”.


Enquanto a família de Carolina comemorava, continuava o calvário dos Gouvêa Vieira(1) e dos Chiesa. Uma semana depois dos seqüestros, na tarde de 1º de novembro, o Regimento de Polícia Montada de Campo Grande recebia um novo fax do Disque-Denúncia. O relato número 89.11.95 dizia: “no Caminho do Vai e Vem, em Rio das Pedras, Campo Grande, sobe um morrinho. No início do morrinho existe um portão preto que dá para um sítio. Há muito movimento de carros estranhos no local e também existe uma pessoa seqüestrada no sítio. A polícia esteve no local, só que não entrou nesse sítio”. Comandante do Regimento, o coronel Gilberto Pereira pegou o fax, estranhou o endereço e correu até a mesa, onde agarrou-se a um guia de ruas. Revirou o livro de cima a baixo e nada. Cismado, ele entrou na sala do serviço reservado e reclamou que não conseguia encontrar o local. Foi quando um soldado, que descansava em um canto da sala, interrompeu o coronel. “Meu comandante, o caminho do Vai e Vem não é em Rio das Pedras. É em Rio da Prata. Eu conheço”. Pereira deu a ordem: “Veste paisano e vai lá com o Weber”. Weber era o mesmo policial que, seis dias antes, libertara Carolina do cativeiro. Naquele dia, estava ali por acaso. Deveria estar de folga, como previa a escala do Regimento, mas havia trocado com um colega, que precisava do dia livre. Era fim de tarde quando a equipe chegou ao lugar descrito na denúncia – uma região de sítios, com algumas poucas casas, quase todas de aparência muito simples. “Seguíamos de carro quando deu para perceber uma pessoa no alto do morro. Já achei estranho, mas, para não despertar suspeitas, não parei em frente ao tal sítio. Continuei e dei a volta. O problema é que a viatura que vinha atrás da gente parou assim que viu o sítio, com o portão preto. Aí, não era mais possível perder tempo. Deixamos os carros e entramos correndo. A casa ficava mais ao fundo, numa descida. Uma casa muito humilde”, conta o tenente-coronel Weber.

Os policiais se dividiram. Parte cercou a casa, parte arrombou a porta e entrou. A construção estava vazia, mas havia um único quarto com a porta trancada. Com o tornozelo ainda dolorido por causa de uma entorse, Weber pediu ao colega que metesse o pé na porta. O colega atendeu ao pedido, a porta veio abaixo e logo os policiais se surpreenderam com a cena. O quarto era escuro e úmido. Tinha aproximadamente 9 metros quadrados e um colchão de casal jogado sobre o chão vermelho. Deitado sobre ele, havia um rapaz encapuzado, amordaçado e com braços e pernas amarrados. Ao lado dele, restos de biscoitos e uma garrafa de refrigerante. “Falei para ele que éramos da Polícia. Ele abraçou, chorou, ficou muito emocionado. A gente sentiu que ele tinha sido maltratado”, diz Weber. O refém era Marcos Chiesa. Nos sete dias de calvário, saber-se-ia depois, ele passou por vários cativeiros, foi transportado na mala de um carro, machucou o pé numa das mudanças, dormiu preso a uma árvore numa gruta. Passou frio, sede, fome e pensou que fosse morrer. Libertado pelos policiais, Marcos foi levado ao Regimento de Polícia Montada, onde tomou banho e jantou ao lado da tropa. Depois, foi conduzido à Divisão Anti-Seqüestro, onde o pai e os irmãos esperavam por ele. Naquela noite, diante de um pelotão de repórteres, Marcos agradeceu e fez um apelo à população, pedindo que as pessoas continuassem a ligar para o Disque-Denúncia.


A voz anônima que levou a PM ao cativeiro de Marcos esforçara-se – e muito - para ajudar. Primeiro, ligou para o Disque-Denúncia informando a localização do cativeiro. Depois, acompanhou a movimentação de policiais da Divisão Anti-Seqüestro pela vizinhança. Como eles foram embora sem chegar à casa, o informante ligou novamente para o Disque-denúncia, desta vez com detalhes mais precisos. Durante todo o episódio, um cidadão, anônimo, monitorou, da janela, a ação de bandidos e policiais. E repassou tudo o que viu em suas ligações. Horas depois, ao lado do filho, José Chiesa desabafava aliviado: “Sem a denúncia acho que meu filho não teria sido encontrado”.

Os seqüestros de Marcos, Carolina e Eduardo desencadearam uma onda de indignação que uniu empresários e moradores de favelas, organizações-não-governamentais, políticos, artistas, sindicatos. Um amplo movimento pela paz, batizado de Reage Rio, ganhou as ruas da cidade. Enquanto isso, a central de atendimentos do Disque-Denúncia via o volume de telefonemas crescer 800% em quinze dias. Os seqüestros de outubro de 1995 foram a prova de fogo do Disque-Denúncia. “Foi quando pudemos provar a eficácia do sistema”, afirma Zeca Borges, coordenador do serviço. O combate ao crime no Rio de Janeiro ganhava uma nova arma. E desta vez ela estava nas mãos do cidadão.
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1 Várias denúncias falavam do suposto cativeiro de Eduardo. Nenhuma levou a polícia até ele. O rapaz viria a ser libertado, graças a investigações da Polícia Civil, na madrugada do dia 31 de novembro – mais de um mês depois do seqüestro, em Santa Cruz da Serra, Duque de Caxias. Eduardo estava acorrentado ao empresário José Zeno, seqüestrado quatro meses antes, na porta de sua casa, no Condomínio Novo Leblon, na Barra da Tijuca.

quinta-feira, 8 de março de 2012

DIA INTERNACIONAL DA MULHER E OS EXEMPLOS DE MULHERES CORAGEM


Milton Corrêa da Costa
(Neste 08 de março, Dia Internacional da Mulher, vale conhecer a história de vida da ex- esposa de Guimarães Rosa, a luta da magistrada corregedora do Conselho Nacional de Justiça e o trabalho de uma Major da PM do Rio de Janeiro)

ARACY MOEBIUS DE CARVALHO GUIMARÃES ROSA
Paranaense, nasceu em Rio Negro, e ainda criança foi morar com os pais em São Paulo. Em 1930, Aracy casou com o alemão Johan von Tess, com quem teve o filho Eduardo Carvalho Tess, mas cinco anos depois se separou, indo morar com uma irmã de sua mãe na Alemanha. Por falar quatro línguas (português,inglês, francês e alemão), conseguiu uma nomeação no consulado brasileiro em Hamburgo, onde passou a ser chefe da Secção de Passaportes.
No ano de 1938, entrou em vigor, no Brasil, a CircularSecreta 1.127, que restringia a entrada de judeus no país. Aracy ignorou acircular e continuou preparando vistos para judeus, permitindo sua entrada no Brasil. Como despachava com o cônsul geral, ela colocava os vistos entre a papelada para as assinaturas. Para obter a aprovação dos vistos, Aracy simplesmente deixava de pôr neles a letra J, que identificava quem era judeu.
Nessa época, João Guimarães Rosa era cônsul adjunto. Ele soube do que ela fazia e apoiou sua atitude, com o que Aracy intensificou aquele trabalho, livrando muitos judeus da prisão e da morte.
Aracy permaneceu na Alemanha até 1942, quando o governo brasileiro rompeu relações diplomáticas com aquele país e passou a apoiar os Aliados. Seu retorno ao Brasil, porém, não foi tranquilo. Ela e Guimarães Rosa ficaram quatro meses sob custódia do governo alemão, até serem trocados por diplomatas alemães. Aracy e Guimarães Rosa casaram, então, no México, por não haver ainda, no Brasil, o divórcio. O livro "Grande Sertão: Veredas", de João Guimarães Rosa (1956), foi dedicado a Aracy.
Sua biografia inclui também ajuda a compositores e intelectuais durante o regime militar implantado no Brasil em 1964, entre eles Geraldo Vandré, de cuja tia Aracy era amiga.
Aracy ficou viúva no ano de 1967 e não se casou novamente.Sofria de Mal de Alzheimer e morreu no dia 3 de março de 2011 em São Paulo, de causas naturais, aos 102 anos.
Fonte: Site Brasilianas. Org

ELIANA CALMON
Ao liderar a luta pela devolução ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ), conforme recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), do direito de investigar magistrados, independentemente das ações nas corregedoroias estaduais, a ministra Eliana Calmon, corregedora do CNJ, ganhou a admiração de todos os brasileiros paela luta obstinada em favor da transparência no Poder Judiciário. E, mais, para o bem da democracia, processos disciplinares contra juízes serão julgados agora em sessão pública. Uma ato de coragem que marcou a história do fim do corporativismo, indesejável em qualquer dos Poderes da República e em classes prosissionais. Todos, de uma vez por todas, são agora iguais perante a lei. Para o bem da democaracia, o princípio da transparência dos atos públicos, a começar pelo Poder Judiciário, foi restabelecido. A ética, a coragem e o elevado espírito de patriotismo demonstrados pela insigne ministra Eliana Calmon, são exemplos positivos deixados para as novas gerações. Eliana Calmon é uma mulher coragem. O Estado.Democrático de Direito saiu pois vitorioso pela luta obstinada e incansável de uma valorosa mulher. .
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PRICILLA DE OLIVEIRA AZEVEDO
Ela é negra, corpo seco e musculoso, cabelos sempre presosnum coque bem apertado e, de enfeites, apenas gloss e discretos brincos nasorelhas. Tem 1,65 metro e não deve pesar muito mais do que 60 quilos. Não fossepor uma certa dureza, logo notada, a major da Polícia Militar Pricilla, de 34anos, poderia até ser descrita como uma mulher de aparência frágil. Engano.Depois de expulsar o tráfico do Morro Dona Marta, em Botafogo, como primeiracomandante de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) no Rio, ela ligou naterça-feira dos EUA, na hora do almoço, para contar ao secretário de Segurança,José Beltrame, outro feito. Meio sem jeito, disse que era uma das dezvencedoras do Prêmio Internacional Mulheres de Coragem 2012.
— Você é uma guerreira! — explodiu Beltrame ao telefone.
Não era para menos. Em 2008, ele colocara nas mãos de uma oficial da PM, ignorando resquícios machistas, o mais importante programa de segurança do governo.
Beltrame não esconde de ninguém a admiração que tem pela história de Pricilla de Oliveira Azevedo, de origem humilde, parecida com a dos moradores da comunidade que protegeu por três anos. No início, chegou a andar de fuzil pelas vielas. Depois da pacificação, adotou a pistola. Mas a arma da major sempre foi mesmo a conversa. Junto com a repreensão no olhar, era imbatível. Pode parecer politicamente correta, mas, dizem, que se transformava em operações policiais. Com a adrenalina, sobravam até palavrões.
Mulher coragem. O título faz sentido. Em 2007, ela sofreu um sequestro-relâmpago. Foi levada com uma arma enfiada na boca até uma favela em Niterói. Quando a identificaram como policial, ela apanhou. Na cara. E muito.Ficou cheia de hematomas. Mas conseguiu fugir. Catou um por um seus detratores;só falta um. Um dia chega o dia dele.
Estudante de direito, a major — que deixou até afilhados na favela; e quantas Pricillas sem S não nasceram depois de sua passagem por lá? — só saiu do Dona Marta para assumir o desafio de cuidar de todos os projetos estratégicos da pasta.
O prêmio é um luxo para Pricilla, evangélica da Assembleia de Deus, criada no subúrbio. Será entregue nesta quinta-feira, Dia Internacionalda Mulher, pela secretária de estado americana, Hillary Clinton, em Washington.E terá como convidada especial ninguém menos que a primeira-dama Michelle Obama. Pricilla também deverá ser cumprimentada por Leymah Gbowee e Tawakkol Karman, que ganharam o Prêmio Nobel da Paz de 2011. O evento será no Auditório Dean Acheson do Departamento de Estado dos EUA. Em comum entre as premiadas,ações na área de direitos humanos, caso de Samar Badawi, ativista política da Arábia Saudita, ou de Hawa Abdallah Mohammed Salih, do Sudão.
Fonte: Jornal 'O GLOBO'
EXEMPLOS

Aracy, Eliana e Pricilla são, pois, três belos exemplos de mulheres coragem a serem reverenciadas, entre bilhões de mulheres heróis e anônimas no mundo, neste O8 de março. Nossos calorosos aplausos a quem dá a luz da vida e os exemplos de coragem, amor, afeto, doçura e companheirismo. Parabéns mulheres pela lutas e conquistas.
Milton Corrêa ds Costa é coronel da reserva da PM do Rio de Janeiro

segunda-feira, 5 de março de 2012

As ofensas à magistrada e ao policial

Milton Corrêa da Costa

Dois recentes episódios, de ofensa a uma magistrada e a um policial, ambos encontrando-se no pleno exercício de suas missões, precisam ser objeto de reflexão. No primeiro caso, ocorrido dias atrás, na Zona Oeste, durante uma operação de fiscalização da Lei Seca, um delegado da Polícia Civil, passageiro de um veículo sem placas de identificação, e sem que a nota fiscal de compra tivesse sido apresentada, insurgiu-se, de forma desrespeitosa, a um oficial da PM que ordenara proceder de acordo com o Código de Trânsito Brasileiro.

Salta aos olhos a reprovável e inaceitável conduta da referida autoridade policial — o episódio foi flagrado em vídeo — ao desacatar o oficial. Um mau exemplo para quem deveria ser o primeiro a zelar pelo cumprimento da lei e sobretudo respeitar agentes da autoridade no exercício legal da função. Ninguém está cima da lei pelo cargo ou função que ocupa. A reação agressiva e deselegante, tentando desacreditar e constranger o policial em via pública, fere o bom comportamento social e ético que se espera de autoridades policiais. Indesejável e reprovável conduta, sem nenhuma dúvida.

O outro episódio, este de claro desrespeito, foi protagonizado pela advogada de defesa de Lindemberg Alves, durante o julgamento de seu cliente, condenado a 98 anos de prisão. A advogada Ana Lúcia Assad, em dado momento do julgamento, disse à juíza do caso: “Você precisa voltar a estudar’’.

A juíza Milena Dias afirmou durante a leitura da exemplar sentença de condenação, que requisitou ao Ministério Público, em sua legítima defesa e a do próprio Poder Judiciário, que apure a declaração dada pela advogada. A juíza considerou que houve crime contra a honra. A frase, segundo ela, foi proferida de “forma jocosa, irônica e desrespeitosa.” Fica aqui, portanto, o ensinamento de que sem respeito à justiça e à polícia não há respeito à lei, à ordem e ao Estado Democrático de Direito.

Milton Corrêa da Costa é coronel da reserva da PM do Rio de Janeiro

domingo, 4 de março de 2012

ÁLCOOL, MACONHA E DIREÇÃO: UM COQUETEL PERIGOSAMENTE MORTÍFERO

Milton Corrêa da Costa

O motorista de uma picape colidiu contra uma moto e matou um casal na manhã de sábado, 03 de março, na Avenida M’Boi Mirim, na Zona Sul de São Paulo. Será indiciado por homicídio doloso (dolo eventual), segundo informações da polícia que afirma que a perícia encontrou, atrás do banco do passageiro do veículo, um cigarro de maconha. Por volta das 6h30, após fazer uma conversão proibida, próximo ao Terminal Guarapiranga, o veículo atingiu a moto onde estava o casal Alexandre da Silva e Francielle Paiva, que deixaram uma filha de 6 anos. Antes de colidir contra um muro e derrubar um portão, ele ainda atropelou um homem que caminhava pela calçada. O motorista do carro ficou gravemente ferido e ficou internado no Hospital das Clínicas.

Como se não bastassem as tragédias ocorridas no trânsito pelo uso do álcool, tal fato traz novamente à baila a discussão sobre o efeito do uso da maconha (droga ilícita) na condução de um veículo e na vida cotidiana. “É preciso explicar as coisas à luz das últimas pesquisas. Se é verdade que antigamente um cigarro de maconha provocava efeitos equivalentes ao de duas doses de uísque, hoje, com as mutações genéticas produzidas nas sementes da planta para intensificar as sensações que ela provoca, é praticamente impossível determinar os níveis de THC (tetrahidrocanabinol), o princípio ativo da maconha que cada cigarro contém”, pondera a psiquiatra Maria Thereza de Aquino, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e diretora do NEPAD, Núcleo de Estudos e Pesquisa em Atenção ao Uso de Drogas.

Um dos discursos mais conhecidos daqueles que defendem a legalização da maconha é justamente o de questionar a venda livre de bebidas alcoólicas e de cigarros. Consideram hipocrisia condenar a liberação do consumo da droga ao mesmo tempo em que bebidas e cigarros- que consideram bem mais prejudiciais ao organismo do que a Cannabis sativa- são comercializados livremente em todo o país. Apesar de chamar a atenção para os riscos do álcool e do tabagismo, esse questionamento não tem levado em conta as dificuldades de comparação de produtos tão diferentes. “A maconha não é pior do que o álcool, mas é muito mais prejudicial do que o cigarro”, afirma o psiquiatra de adolescentes Içami Tiba, autor do livro “ A maconha e o jovem”, editado em 1989.

Anos depois, ele não só continua contra a legalização da maconha como pesquisou e descobriu mais um importante argumento para reforçar a sua posição- a existência de três níveis de prejuízo para o usuário. “Há o prejuízo ético, que ninguém costuma levar em conta, em que há uma quebra de valores próprios. Há também, um comprometimento psicológico, já que a maconha provoca uma forte dependência devido à ação do THC. E. por fim, há o aspecto físico, com danos até para os fetos de grávidas que fumam”, diz o médico.

Quando se fuma um baseado, as moléculas de THC vão para o pulmão. De onde caem na corrente sanguínea que distribui a substância para todos os órgãos. As primeiras moléculas chegam em segundos aos neurônios, embora os efeitos da droga só comecem se manifestar em 10 a 15 minutos (obviamente que vão influenciar a condução segura de um veículo). Atuando diretamente sobre o sistema límbico, sede do comportamento, da memória e das emoções, a maconha modifica as sensações, intensificando-as e tornando-as mais agudas. Olhar simplesmente para a parede pode ganhar a dimensão de uma experiência nova, com cores, volumes e texturas jamais sonhados. “É quando se tem ideias que parecem geniais, mas que são esquecidas tão logo se sai do transe da droga. E mesmo lembrando, elas deixam de fazer sentido na medida em que é impossível seguir a linha de raciocínio que se teve sob o efeito da maconha”, explica a Dra Maria Thereza.

Os que já experimentaram o barato da Cannabis conheceram a excitação, a fala arrastada, o riso constante, os olhos avermelhados, o pulso acelerado, a perda de concentração de atenção, e a fome que se sucedem a um baseado. Em cinco anos, porém, a uma média de cinco cigarros semanais, o quadro se torna dramático. A apatia e o marasmo embotam a inteligência e a vida do indivíduo. “È a chamada síndrome amotivacional, um quadro irreversível de total falta de motivação para a vida”, explica a Dra Maria Thereza. Ou seja a maconha antecipa os malefícios que o álcool irá causar em quinze/25 anos nos homens, ou em cinco a dez nas mulheres.

Para a Dra Maria Thereza a maconha pode ser mais bem perigosa do que o álcool, já que a atmosfera permissiva que a cerca pode levar adolescentes a usá-la para enfrentar o que Freud chamou de “dor de existir”.Mas tornar-se ou não um dependente de drogas, mesmo numa fase de mudança e conflitos interiores, como é o período que antecede à juventude, é resultado de uma conjugação de diversos fatores: estar passando por uma situação desfavorável; o encontro com a droga; e a personalidade de cada um. Este último item é fundamental: a psiquiatra avalia que “não existem drogados em famílias felizes, bem-estruturadas emocionalmente e sem problemas se adaptação. Por outro lado, para pessoas imaturas, com propensão à dependência (seja ela dos pais, de comida ou de outros tipos de apoio), a maconha pode servir para abrir a porta do que é proibido.

Ainda assim há os que, ao abrirem a porta do proibido, entram e saem. E há os que entram e ficam. ”Mais uma vez, o que faz a diferença é a estrutura emocional de cada um”, explica Maria Thereza de Aquino. O mesmo raciocínio responde ao argumento frequente usado de que a maconha seria um trampolim para drogas mais fortes. Não é. “Ao contrário da excitação provocada pela cocaína que leva muita gente a recorrer ao álcool para reduzir o pique, e novamente à cocaína para sair da depressão provocada pelo álcool, no caso da maconha é o ambiente à volta que influencia a se experimentar outras drogas novas e sensações”, explica a psiquiatra.

“Mas aqueles que trilham o caminho das drogas passam por ela. É muito comum a garotada acreditar que tem controle total sobre a droga, mantendo a falsa noção de que fuma porque quer e que é capaz de parar quando desejar. Não é realidade. Dificilmente o garoto percebe que está sendo dominado pela droga, que a dependência psicológica provocada pela maconha, é muito mais forte que a física, pois leva o dependente a sentir a necessidade de alteração psicológica”, afirma o Dr Içami Tiba, que em sua opinião o melhor caminho é concluir que a droga venceu o primeiro assalto da luta e que a família- e não só o filho- precisa de ajuda para não perder toda a batalha.

É fácil também concluir que assim como o álcool, maconha (droga ilícita) e direção é desgraça presumível. O uso das duas drogas ao mesmo tempo é mais desgraça presumível ainda mais quando se está ao volante de um carro.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Morro do Preventório - Charitas, Niterói


Em 2011 foram registradas na Central Disque-Denúncia 2500 informações sobre tráfico de drogas em Niterói. Delas, 375 referem-se ao Morro do Preventório, em Charitas. De acordo com 23 destas denúncias, traficantes da Mangueira lá estão refugiados desde sua ocupação, em 16 de julho de 2011 e descrevem sua ação com o apoio dos traficantes locais pertencentes ao Comando Vermelho.

Liderados pelo traficante procurado Danilo Bocão, o grupo composto por Diguinho, Leleco, Tiago, Bill, Playboy, dentre outros, foi responsável pela morte da gestante Thaila de Oliveira Braga dos Santos, moradora da comunidade e acusada de ser informante da polícia. Em razão deste homicídio, ocorrido no mês de julho, Danilo encontra-se foragido da justiça e o Disque-Denúncia oferece recompensa de mil reais para informações que ajudem a polícia a localizá-lo.

Os demais relatos evidenciam o sentimento de medo da comunidade e a constante coação dos moradores, que sofrem diversas ameaças, são expulsos ou têm suas casas invadidas, e são obrigados a conviver em um ambiente dominado pelo crime.

O grupo circula tranquilamente pelo Morro, portando fuzis e metralhadoras. Nos fins de semana, realiza bailes funk com execução de músicas em alto volume que fazem apologia ao sexo e ao tráfico de drogas.

Em 2012 já foram registradas 19 denúncias sobre o tráfico de drogas nesta localidade, em sua maioria alertando as autoridades sobre a ação violenta dos traficantes, que impõem toque de recolher, e conforme relatado, recentemente rasparam o cabelo de alguns moradores suspeitos de serem informantes da polícia.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

2011, o ano em que o tráfico perdeu, playboy

O ano de 2011 na área da segurança local e mundial ficará marcado por duas imagens, mas três podem resumir esse período. Uma é a do traficante Nem (foto acima) vestindo camiseta verde, uniforme de detento da Secretaria estadual de Administração Penitenciária, cabeça raspada e um olhar de indefeso menino de rua. A outra vai demorar décadas para sair dos arquivos da CIA: Osama Bin Laden morto pelas forças especiais americanas, no covil dele, no Paquistão. Terminava uma caçada de dez anos, que mudou drasticamente o conceito de segurança e combate ao terrorismo no mundo todo. Já a prisão de Nem é o retrato de que a polícia pode vencer o narcotráfico e criminosos que eram tidos como invencíveis, entocados nas favelas do Rio. Bastou uma operação de inteligência que não deu um só disparo na ocupação da maior favela do Brasil -- a  Rocinha -- de onde Nem controlava também policiais do 23º BPM e quem sabe da 15ª DP (Gávea). Após a prisão  por policiais do Batalhão de Choque, Nem contou a agentes da Polícia Federal -- para onde fora levado por falta total de confiança na delegacia da área onde foi preso -- que metade de seu lucro ia para a "caixinha" da polícia. A mesma que prometia prendê-lo.
A prisão de Nem teve outra ajuda importante: a sociedade, que por meio do Disque-denúncia (2253-1177) passou a acreditar ainda mais na ação da polícia e deu telefonemas que foram fundamentais para se planejar operações sigilosas contra o tráfico e até as milícias, mais difíceis de serem enfrentadas porque estão infiltradas no aparelho policial e contam com métodos de convencimento da população mais eficientes do que os do tráfico.
A terceira imagem, não menos importante, foi revelada pelas câmeras do tribunal  de Justiça. É a da juíza Patrícia Acioli, deixando pela última vez sua sala, onde ela fazia um trabalho essencial no combate aos criminosos dentro da polícia. Na noite de  11 de agosto, uma quadrilha formada por policiais do 7º BPM (São Gonçalo) executou um plano suicida -- ao estilo da Al Qaeda -- que foi atentar contra a Justiça. Mataram a magistrada que os investigava, mas não mataram a sede de Justiça da sociedade.
O ano de 2011 foi importante para este blog porque o blogueiro teve a chance de deixar um pouco a posição de analista e honrar o nome do site, subindo a Rocinha e a Mangueira, para acompanhar as  operações policiais. Vi coisas extraordinárias. Percebi que os moradores de favelas estão botando fé na política de pacificação, que projetou para o mundo a imagem do secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, como um grande estrategista, apesar de eventuais falhas de seus colaboradores diretos. Foi ano em que caíram dois chefes da cúpula. O primeiro foi o delegado Allan Turnowski, substituído por Martha Rocha, em fevereiro. O outro foi o coronel Mário Sérgio Brito, que cedeu a más companhias, e  foi substituído em outubro pelo coronel Erir Costa Filho.
Para encerrar o ano e virar mais uma página,  aqui vão  as principais notícias de crime e de segurança pública:
Janeiro - Pela primeira vez uma mulher assume o comando da Secretaria Nacional de  Segurança Pública. É Regina Miki.
Fevereiro - A Polícia Federal se firma como corregedoria informal das polícias civil e militar. Prende uma quadrilha formada por policiais que vendiam  armas a bandidos.  A ação respinga no chefe da Polícia Civil, Allan Turnowski, que cai como inocente. No lugar dele assume a delegada Martha Rocha.
Abril - No dia 12, um doente armado de dois revólveres matou 12 alunos da Escola municipal Tasso da Silveira, no que ficou conhecido como o Massacre de Realengo. O atirador se matou e de seu nome felizmente ninguém mais lembra.
Maio - Uma rebelião de bombeiros acaba resultando na invasão do quartel-central e em conflito com policiais do Batalhão de Choque. Os bombeiros só queriam ser ouvidos pela cúpula do governo, mas a briga resultou em uma sucessão de erros, na qual o governador Sérgio Cabral admitiu mais tarde que pegou pesado.
Junho - Numa desastrada operação numa favela na periferia de Nova Iguaçu, PMs matam um menino de dez anos e somem com o corpo. Dias depois Juan foi achado morto e agora falta mandar para a cadeia os policiais.
Agosto - Na noite de 11, dia do advogado, a juíza Patrícia Acioli foi executada covardemente. Graças a um trabalho primoroso de investigação da Delegacia de Homicídios, os assassinos foram presos. Graças à delação de um deles, foi pego também o mentor do crime, o então comandante do 7º BPM, coronel Cláudio, que tinha no cargo todo apoio do então comandante-geral da PM, coronel Mário Sérgio.
 Setembro - No dia 3, o arquiteto é assassinado por motoqueiros em Ipanema. Naquele mês o Exército enfrenta problemas na ocupação do Complexo do Alemão. Cai o comandante-geral da PM, coronel Mário Sérgio, que oficialmente se demitiu depois da prisão do tenente-coronel Cláudio, acusado de ser o mentor da morte da juíza.
Outubro - Assume o comando da PM o coronel Erir Costa Filho, mandando coronéis para reserva e impondo novas normas de conduta aos comandantes de batalhão, como não levar com eles mais do que o subcomandante. Um estudo de economista do IPEA levanta polêmica sobre a redução de homicídios no estado. O secretário de segurança ameça processá-lo, mas chegam a um denominador comum e tudo acaba bem. Depois do entrevero, porém, os números do ISP nunca mais serão os mesmos.
 Novembro - No dia 1º, a ONG Rio de Paz leva a Copacabana a cruz com os números de homicídios, em sua cruzada contra a violência. No dia 6, o cinegrafista Gelson Domingos é morto num confronto entre PM e traficantes na favela de Antares, em Santa Cruz, Zona Oeste do Rio. No dia 14, as forças de segurança ocupam a Rocinha e retomam o território do tráfico de drogas, sem um disparo sequer.
Dezembro - Acontecem os primeiros assaltos ao comércio da Rocinha, num desafio à ocupação policial. Uma megaoperação da Polícia Civil cerca bicheiros, mas só um é preso. Dias depois os contraventores estão liberados por habeas corpus. O secretário Beltrame diz que a sociedade precisa reagir. O jogador Adriano é suspeito de ter baleado uma moça dentro do carro dele, após saírem de boate na Barra. Dias depois a jovem disse ter sido a autora do disparo, absolvendo o Imperador.

Por Jorge Antônio Barros

domingo, 27 de novembro de 2011

Violência contra a mulher - Campanha

O dia 25 de novembro é marcado pelo Dia Internacional da NÃO violência contra a mulher. Apesar das conquistas femininas no mercado de trabalho, na política e na independência de suas escolhas, muitas mulheres ainda enfrentam dentro de suas próprias casas o seu maior desafio: a luta contra a violência.
O Disque-Denúncia lançou uma campanha por denúncias sobre seis homens, procurados por cometer estupros e/ou assassinato de suas companheiras. Para todos eles há uma oferta de recompensa. A mai alta é para Willian Jefferson Lima, o Guel, que em maio de 2007, assassinou em São Gonçalo, a namorada Joseane Monteiro dos Santos, de 18 anos, por não aceitar o fim do relacionamento.
Até outubro de 2011, o Disque Denúncia recebeu 599 denúncias sobre violência sexual contra mulheres e 1007 sobre violência doméstica.
Ajude a combater este tipo de violência. Ligue para o Disque-Denúncia (2253-1177), o anonimato é garantido.
Campanha não violência contra a mulher
Programa DD Mulher
Para melhor atender as mulheres, o Disque Denúncia do Rio desenvolve o programa DD Mulher, que consiste no atendimento especializado a mulheres vítimas de violência doméstica e intrafamiliar. A equipe é treinada para orientar sobre como proceder: encaminhar a vítima ao serviço policial, psicológico, jurídico e/ou de saúde.
As Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) são as principais parceiras do Programa.
Já em Pernambuco, estado que registra alto índice de assassinato de mulheres por seus companheiros, o Disque-Denúncia desenvolve um trabalho permanente de localização desses criminosos.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Viva o Rio!

Recordar é viver. Três anos atrás deu-se o início do fim do controle territorial armado pelo D. Marta (Zona Sul, 5 mil moradores e controlada pelo tráfico), Cidade de Deus (Zona Oeste, 40 mil moradores e controlada pelo tráfico) e Batan (Zona Oeste, 50 mil moradores e controlada pela milícia).

A reação de alguns foi de descrédito “pois focava só em uma pequena favela da Zona Sul”, como se CDD e Batan não o tivessem sido (ou seria por desconhecerem que existe uma Zona Oeste no Rio?).

Ao final do ano seguinte praticamente toda Zona Sul, com exceção de Rocinha, havia sido pacificada. Apesar disso a soma de TODOS os moradores destas favelas era equivalente a “uma CDD” ou “um Batan”.

A reação de alguns continuou sendo de descrédito dizendo que era um projeto elitista SÓ para a Zona Sul (ignorando o fato de 2/3 das pessoas libertadas eram da Zona Oeste e a explicação da importância de pacificar regiões onde se encontravam mais de 50% dos empregos formais da cidade) e que duvidavam que fosse expandido para a Zona Norte.

Um ano depois, ainda antes da tomada do Alemão, praticamente TODO início da Zona Norte havia sido pacificado.

A reação de alguns continuou sendo de descrédito dizendo que eram todas pequenas (???), e que seria impossível retomar as grandes favelas (Alemão, Rocinha e Maré).

Ao final do ano passado também o Alemão estava retomado e, portanto, em APENAS DOIS ANOS cerca de 25% da população oprimida pelas armas durante décadas haviam readquirido o direito de ir e vir.

Mais uma vez o descrédito de alguns dizendo que o objetivo era somente ter certeza que as Olimpíadas transcorreriam em paz – insinuando que depois das mesmas a polícia sairia destes locais – (NOTA: me fascina este argumento, pois a pacificação começou quase UM ANO ANTES do Rio ter sido ESCOLHIDO como sede das Olimpíadas. Haja visão....). Outras teorias davam conta de um acordo para só atacar as favelas do Comando Vermelho; que NADA foi feito contra os milicianos (e o Batan? E a prisão de dezenas de milicianos e centenas de PMs da banda podre – aliás iniciada muito antes de uma conhecida CPI das milícias?), nem na Zona Oeste (realmente SÓ 40% dos libertados eram moradores da Zona Oeste...), que iria parar após as eleições E que duvidavam que fosse possível retomar as duas grandes que faltavam (Rocinha e Maré).

Agora estamos completando o terceiro ano da política de pacificação com a retomada da “inexpugnável” Rocinha (aliás, para quem não sabe, dominada pela ADA e não CV) SEM um tiro sequer. Aliás, só houve tiros, sem fatalidades, no D. Marta e na Vila Cruzeiro (no Cantagalo houve atos de terrorismo com o incêndio de um ônibus), fato que os descrentes diziam ser impossível (NOTA: muito se pergunta para onde vão os bandidos que saem correndo como frouxos. Primeiro vamos lembrar que são poucos, diante do número de pessoas envolvidas com o tráfico e milícias. Muitos deles já foram capturados – incluindo gente graúda como os recentes Nem, Coelho, Peixe, etc. - , outros morreram em outros locais – dentro e fora da cidade, e alguns se exilaram até no Paraguai. NENHUM RECONSTRUIU seu “controle territorial armado” em qualquer outro lugar),

Depois de três anos da política de pacificação perto de 50% das ÁREAS com violento controle territorial armado (que NENHUMA relação tem com a contagem de favelas do IPP, para frustração de alguns que usavam este número para tentar demonstrar que era impossível pacificar nossa cidade) e cerca de 45% dos moradores, e duas das três grandes favelas (só falta a Maré que muito provavelmente, para alegria da maioria dos moradores, estará livre até o final do ano que vem) AGORA ESTÃO LIVRES (logo, perfeitamente dentro do cronograma de pacificar toda a cidade até o final de 2014). Além disso, os índices de letalidade (homicídios, latrocínios, autos de resistência e outras formas de mortes violentas) e roubos de carros (cobrem da sua seguradora!!!) têm caído constantemente e em valores significativos na nossa cidade nos últimos três anos, em especial nas áreas pacificadas e seus entornos.

Portanto, EU PEÇO PERDÃO aos pessimistas, descrentes, céticos, “do contra”, criadores de “teorias de conspiração”, ou apenas mal-humorados, MAS se a política de pacificação e sua estratégia de implantação estão erradas, então viva o erro !!! Eu prefiro me juntar a maioria dos cariocas, em especial aos que tiveram restituídos o seu direito de ir e vir, ou passaram a ter a esperança de serem libertados, e dar parabéns e agradecer aos envolvidos. Como diria o Ancelmo: EU APOIO!!

Viva o Rio !

(De um amigo do Disque-Denúncia, que nos orienta com sua experiência e sabedoria)

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Boas intenções

Por vezes ouvimos sugestões bem intencionadas de tornar o Disque Denúncia (2253 1177) mais acessível ao povo, tornando seu número de telefone gratuito e mais fácil de ser recordado. Parece razoável quando não se tem a compreensão daquilo que faz com que o Disque Denúncia seja um instrumento eficaz de combate ao crime. Mas é uma idéia equivocada e perigosa, que pode inviabilizar a eficácia comprovada do serviço.

Antes de tudo, o DD não é uma central de emergência. Não deve jamais concorrer com o 190 ou com o 192, destinados a dar uma pronta resposta a situações de perigo, desastres e ameaças de tragédias. O Disque Denúncia é uma central destinada a receber do cidadão informações sobre atividades criminosas. Isto o torna um importante instrumento de inteligência policial.

Como toda central de inteligência, o Disque Denúncia necessita formar um banco de dados com informações confiáveis. Não se pode mobilizar uma equipe policial com dados irrelevantes ou falsos. Também não se pode lidar com o excesso de informações sobre uma ocorrência, confundindo mais do que ajudando os policiais em seu trabalho.

Como criar um filtro que melhore a qualidade das informações do Disque Denúncia, sem prejudicar a segurança do denunciante? A solução que adotamos tem muito a ver com a necessidade de se confiar na consciência do cidadão, acreditar em seu comprometimento com a cooperação social. E na sua capacidade de julgamento e liberdade de escolha, como ser humano livre que é.

O número do Disque Denúncia não deve ser difícil, é claro, mas também não deve ser muito fácil. Deve ser acessível, estar em toda parte, menos na cabeça do cidadão. Quando alguem presenciar uma atividade ilícita irá refletir se vale a pena ligar para o DD. Se assim entender, deverá procurar e encontrar o número com facilidade. Ele - o cidadão - é o primeiro e principal analista do sistema. É quem toma a primeira decisão importante: ligar para o Disque Denúncia.

Há uma segunda situação de reforço na qualidade da informação: a ligação é paga. Quando uma equipe policial inicia uma investigação ou uma ação de policiamento, está baseada numa ligação anônima, sim, mas que não é gratuita. Alguém se dispôs a pagar para levar aqueles dados às autoridades. Não se está utilizando recursos do Estado à toa. Seria bastante temerário, talvez imprudente, basear todo o esforço de uma equipe policial em uma informação anônima, vinda de uma ligação gratuita através de um número de três dígitos.

Quando se tem uma central de atendimento gratuito e que usa um número fácil, qualquer acontecimento mais grave inviabiliza o sistema. Imaginem um crime de comoção pública, ou uma oferta de recompensa por um criminoso perigoso: os canais seriam sobrecarregados de ligações, prejudicando exatamente aquelas pessoas que teriam as informações necessárias à uma ação policial de sucesso.

Os sistemas de atendimento baseados em telefone gratuito de três dígitos não conseguem, por motivos de logística, dar um atendimento satisfatório à população. O número de ligações perdidas e irrelevantes supera o de registro de denúncias. Além disso, demandam um custo operacional muito mais alto, em função da necessidade de um número desproporcional de operadores.

O Disque Denúncia deve seu sucesso ao apoio da população que, curiosamente, não se manifesta, através de nossos telefones, por uma mudança para outro sistema.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O cidadão está fazendo sua parte

As pessoas estão acostumadas a avaliar o Disque-Denúncia pela ótica do crime e da violência, com a visão de que há um agressor a ser punido. Poucos se dão conta que há também uma vítima em cada crônica, e por vezes, uma vítima cujo agressor é a própria sociedade. 

Lidamos com todo o tipo de abandono. É de sensibilizar casos em que crianças e idosos são abandonados, reféns de sua dificuldade de viver sozinhos, em situações de extrema penúria, que podem até levá-los à morte.

Outro dia uma denúncia levou o conselho tutelar a encontrar cinco crianças, tendo o mais novo um ano de idade, e o mais velho onze. Haviam sido abandonados pela mãe e sobreviviam com o auxilio de vizinhos, gente humilde e que também tinha suas dificuldades, e o pouco que podiam fazer não era suficiente.

Nós, aqui no Disque Denúncia, às vezes nos perguntamos se o que fazemos não será ainda  muito pouco. Quase desesperamos ao testemunhar os dramas dos subterrâneos da nossa sociedade. Mas quando ouvimos alguém dizer que ninguém faz nada, como ignorar as mais de cem mil denúncias por ano que recebemos da população?

O cidadão está fazendo sua parte, sim.

Zeca Borges